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Saúde Mental

Atualizado: 25 de mar. de 2022

ABISMO

A depressão é como ser atingido por um camião

Até não ser mais possível mover

Ou sequer respirar.

São as notas de silêncio que tanto desejas

Como pérolas num oceano de caos.

É a incerteza do que fazer,

De decidir que a corrente te arraste

Ou continuar a nadar

Ainda que o corpo grite de cansaço.

É olhar ao redor e vislumbrar uma camada espessa de neblina

E reparar que ninguém é afetado por ela,

É perceber que apenas tu és prisioneiro dela

E que te agarra e amarra

Sem te deixar dar um passo em frente,

Puxando-te para o abismo.

É tentar lutar para não sucumbir,

Mas deixar-te ir por exaustão.

Depressão é olhar e apenas ver escuridão

E por vezes ver pequenos pirilampos,

Até perceber que é o sol a querer espreitar pelas fendas do teu caixão,

O qual tem sido a tua casa desde que há memória,

Ainda que apenas agora comeces a assimilar isso.

Depressão é como um boomerang,

Vai embora e volta,

Vai embora e volta sempre.

Depressão é repetir para ti mesmo

“eu quero viver” vezes sem conta,

Esperando que acredites na milésima vez.

É ver notícias de suicídios e querer ter pena,

Mas apenas sentir inveja por não ter sucedido em todas as vezes que tentei.

Talvez o quisessem mais que eu.

Depressão é olhar para o rosto da tua mãe,

A mulher que te deu a vida

E querer dizer que já não a queres mais.

Depressão é aprender a viver todos os dias,

Todas as horas,

Todos os segundos,

Esperando sobreviver ao dia

Ainda que a tua cabeça te diga que lá em baixo é mais acolhedor.

É querer estar bem,

Mas não saberes quem és sem ela,

Como se ela fosse uma velha amiga.

Sempre presente.

Depressão é vazio,

Como se estivesses cheio de sede no meio de um oceano,

Sem a possibilidade de beberes.

É sentires a tua alma despedaçada

A gritar de desespero e agonia

Mas saberes que há quem o tenha pior,

Ainda que não devas desvalorizar a tua dor.

“Sê forte e vais ser feliz” dizem eles,

Como se estivesse encarcerada na minha jaula

Enquanto me tiram fotos,

Como se de uma aberração me tratasse.

É irónico,

Querer a morte

Mas ainda assim lutar tanto por um vislumbre de felicidade.

Não estás sozinho nos pedaços vastos de escuridão que te engolem,

Ainda há esperança de que o sol invada o teu caixão

E que te encha de luz.

A depressão pode ser dona da tua mente,

Mas não tem força para se apoderar da tua alma.

Depressão…

Ela não é eterna.



CATIVA

Diz-me,

Porque castigas o teu corpo

Quando ele é a única coisa que te mantém viva.

Será por saberes isso,

Que enquanto ele te perdurar

Tu estarás como prisioneira numa masmorra de carne,

A qual vive e respira

Ainda que tentes destruir as suas barreiras

Pedaço a pedaço.

Diz-me,

Porque desesperas quando acordas de manhã,

Ao perceber que continuas cativa

Sem teres permissão para voar para longe,

Ainda que das tuas asas sobre apenas o esqueleto,

Como se os teus gritos de agonia

Te tivessem deixado como uma carcaça

À espera dos abutres.

Diz-me,

Porque continuas a tentar

Quando as estrelas já não cintilam,

Quando o teu olhar que era fogo se apagou.

Olha para ti,

Será que vale a pena continuar

Sabendo que estás aqui

Como se te tratasses de um fóssil esquecido,

Enterrado sob toneladas de desassossego.

Continuas a respirar entre miragens de felicidade,

Esperando que a chama se reacenda.

Quem sabe,

Se calhar alguém será capaz de ser a ignição

Da fé que continua sepultada em ti,

Nesse teu cemitério em que perdura a sensação de vazio

E talvez também de esperança.

Ana Cortesão, estudante do 4º ano da ESEnfC

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